ABUTRES OU COLIBRI
Há um poeta conterrâneo que inicia sua ode à situação maquiavélica do momento de forma extraordinária: “Caçadores de vacas secas / caçam as dores de ‘vidas pecas’...”.
Pode-se, sem muito esforço de intelecto, observar a escassez dos verdadeiros homens e o angustiante compasso com que se descompassa as particularidades que até pouco tempo formavam, imprescindivelmente, maior parte da nossa população. Não está finalidade a discussão, e o seria talvez reducionismo exagerado, das razões pelas quais se foram delineando o já estado de normalidade frente aos assombrosos agravos que além das úlceras sociais, também diminuem drasticamente o poder de cura das nossas decepções.
Estas, quiçá, possam representar um claro diagnóstico da atual enfermidade político-social. Acostumamo-nos, propositalmente, às pequenas farsas, aos mais insignificantes sinais e meios de forjar (o outro) e de driblar-nos (a nós mesmos) que de quando em vez já se pode confundir entre o certo e o errado, embora, à primeira justificativa, alguém conteste: “isto é muito subjetivo”. É, contudo, fruto desta mesma subjetividade que o correto representa a individualidade de alguns enquanto que o errado não transcende à mesma subjetividade da fina flor social. São, ambos, proibições e garantias de um mesmo grupo, ao seu tempo e à sua versão.
Assim vão se formando as multidões de abutres. Os mais velhos (que um dia voaram mais alto), agora mandam, regem, adestram o olfato, a cegueira, os corações discordados, os bicos que breve vão se bicar por causa da mesma carniça. Mais sério que disputarem os cadáveres, talvez seja fazê-lo com o pretexto de que o faz pelo bem, embora este, como já disse, pareça, esteja ou seja subjetivo. Esta é a mais nova e velha classe, abutres que mandam, outros (mais jovens) que fazem e outros, ainda, que se comem pelo prazer (inconsciente?) de ser, de ser...
Posso concordar com a subjetividade de algumas terminologias, bem como compartilhar de respostas científicas às indagações mais oportunas. Posso, ainda, ressaltar a dessemelhança nos elementos básicos (como sempre o foi) que hora escrevem, outras desfiguram o ser humano. Não admito, contudo, independente de qualquer “em nome de...”, seja por razões mais diversas, a normalidade com a qual a vida (biológica, social, religiosa, espiritual etc.) tem sido agredida. Não posso (não me permita, DEUS, este agravo) tornar-me abutre nem de mim nem do outro. Prefiro, equivocado, avesso, errado... ser colibri, e não importa se vôo solitário, se é mais cômodo alimentar-se do abundante morticínio, até que nos seja chegada a vez de cadáver. Estou decidido por ser colibri, dividir as últimas flores e deixá-las ali aos que também dependem delas, alegres e, o mais importante, continuando sendo flores.
Oronio Nunes de Oliveira.
Fotografia: http://imediata.org/?p=25
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