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A Segunda Criança



A Segunda Criança

Me empresta teu sorriso
tuas pernas incansáveis,
desejo ser criança
ser livre outra vez.

Desperta, minha Maria
e lava os olhos,
o litro está cheio,
vai brincar no quintal
faz pra mim um açude
do tamanho do mar.

Deixa, Maria,
teus pés de anjo
sentir os terreiros
dos véi teu avô
e pula na poça
molha o cabelo
mas antes, menina
cerra os pau do pulêro.

Depois entra, Maria
entra ligeiro
que a terra tá quente
que a noite vem vindo
descendo a ladeira.

Puxa, Maria
minha pequena esperança
me deixa ser criança
outra vez em você
rumbora, sertana
não me deixa crescer!

ONO

Campo Branco


Cruzadas da Caatinga


Despertem, despertem cavaleiros noturnos
pois jaz o silêncio na alcova da noite
arreiem suas tropas que a estrada se abre;
pelas terras cinzentas estalem os açoites!

Venham comigo recusar o descanso
violar a ternura dos leitos conjugais
tomem seus escudos, pesadas armaduras
cavalos e espadas dos guerreiros medievais.

A poesia tecida na bandeira da vitória
os aboios sejam salmos na voz do vaqueiro
nunca mais os enganos das terras bem distantes
pelo Sangue sejam livres do pesar derradeiro.

E se escute nossa marcha no Alto da Caatinga
nos planos da Vereda a nossa Capital
as cruzadas ribando pras pontas de todo o mundo
no combate terminante do bem sobre o mal.


Oronio N. Oliveira - 11ª Lua de 2009.

Dias de Primavera

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Dias de Primavera


As estações vem e vão
e ainda estamos aqui atados às velhas correntes
velhas promessas, sonhos rompidos
folhas voando, flores caídas
sorrisos forjados
emoções fingidas...

Já não tenho mais forças
para encenações
mentiras doces
ou verdades cruéis.
Não importam mais!

Dor incisiva
beleza enganosa
existência perdida
sonhos brutalmente assassinados...

Espero pelo dia
em que os invasores partirem,
e nossas árvores voltem a crescer;
e novamente em nossos bosques
floresçam as sementes da liberdade,
num acontecimento primaveral.


Erich Gerarhardt

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDO8uE5VvMFsXaTJElhh3cWGGxOzGa6mLROTiwUcUUVnhviEJd3SoUEAyEW_V0Y_lote3WgKlJ2MQ5N1l4nsdtyW0dQRUgPQM314Wx0QLmRmeYA4p3MAKWvtSEQwRMZJt-0G9NxTrfNU0/s1600/opress%C3%83%C2%A3o.jpg

Desterro


Desterro
É sábado. Não há muito lugares para ir, apenas alguns antros estão abertos. A guerra civil devastou a cidade de varias formas; dentre as baixas foram identificados vários ideais.

Ainda se vê na fachada dos prédios cicatrizes da violenta contenda. O conflito nos deixou um legado perverso; as ruas estão inundadas de jovens desempregados; o número de famílias que imigram subiu consideravelmente.

Os melhores empregos são ocupados por estrangeiros; estamos deslocados em nossa própria Pátria. Há uma grande insatisfação e escuta-se muito em pequenos grupos que se escondem nas sobras dos becos, gritos de liberdade que não alcançam as ruas; pois um silêncio marcial foi estabelecido.

Todos que desafiam o regime são torturados e tem que se exilar. Os velhos coronéis ostentam sua riqueza conquistada com anos de ditadura e corrupção. Na outra margem, o povo, cada vez mais miserável, parece ter exaurido todas as suas forças e esperanças.
Alguns seguimentos da sociedade parecem continuar alienados, seguem dispostos a arriscar suas vidas no fronte, em prol de lauréis prometidos pelos donos do poder.

Nossos heróis defendem agora outras bandeiras, neste momento já não há razões para acreditar na vitória. A maioria dos que lutavam partiram, pérfidos amigos, rosas de espinhos venenosos te feriram e irás também; deixarás tudo que sempre amou e odiou; este já não será teu berço e viverás para sempre num desterro.

Erich Gerhardt